Materiais do vídeo
The Silicon ZooGaleria da Florida State University↗A coelhinha da Playboy no chipSilicon Zoo · chip da Siemens↗The Secret Art of Chip GraffitiIEEE Spectrum · 2002↗A nova geração de caçadores de doodlesNPR · 2024↗Chip com Godzilla no acervoSmithsonian · Analog Devices, 1994↗Silicon doodles: os desenhos secretos escondidos nos chips
Waldo, Godzilla, Snoopy e até a coelhinha da Playboy: engenheiros gravaram desenhos menores que um fio de cabelo dentro de chips. Por que faziam isso, como esses desenhos eram feitos e quem caça esses chips hoje.
Se você veio do vídeo: aqui estão os desenhos, a história por trás deles e onde ver a coleção inteira. Menores que a espessura de um fio de cabelo, esses rabiscos passaram décadas escondidos dentro de chips de computador, telefone e calculadora, e quase ninguém sabia que estavam lá.
| Onde ver | O que tem | Link |
|---|---|---|
| The Silicon Zoo | Centenas de desenhos fotografados no microscópio, organizados por tema | micro.magnet.fsu.edu/creatures |
| A coelhinha da Playboy | O desenho do vídeo, num chip da Siemens | Ver no Silicon Zoo |
| Smithsonian | Um chip com Godzilla guardado no museu de história americana | Ver o objeto |
| IEEE Spectrum | A reportagem clássica sobre o assunto, com depoimento de engenheiros | Ler |
O que são silicon doodles
São desenhos microscópicos gravados dentro de circuitos integrados, os chips. Também aparecem com os nomes de chip art, chip graffiti e silicon art. Vão desde as iniciais de um engenheiro até desenhos bem elaborados: personagens de desenho animado, animais, carros, naves, mapas e piadas internas.
O ponto principal: nenhum deles faz o chip funcionar. É metal e silício que estão ali só porque alguém quis.
Do tamanho de quê?

O Waldo, o desenho que deu origem ao Silicon Zoo, tem cerca de 30 micrômetros (µm). Um micrômetro é a milésima parte de um milímetro. Um fio de cabelo humano tem entre 20 e 200 µm de largura, então o Waldo inteiro caberia, com folga, na largura de um fio. Segundo a NPR, alguns detalhes desses desenhos têm só 4 µm.
Para ver, só com microscópio: a IEEE Spectrum fala em aumentos de 500 a 2.000 vezes.
Como um desenho vai parar dentro de um chip
Pensa num carimbo. Um chip é fabricado em camadas, e cada camada é "carimbada" no silício por um processo chamado fotolitografia:
- O engenheiro desenha o circuito no computador. Esse desenho, camada por camada, se chama layout.
- Cada camada vira uma máscara, uma espécie de estêncil.
- Luz passa pela máscara e grava aquele desenho numa resina sensível espalhada sobre o silício.
- Química remove ou deposita material onde a luz bateu, e a camada fica pronta. Repete para a próxima.
O truque: se o engenheiro desenhar um Snoopy num canto vazio do layout, o Snoopy vai junto para a máscara e é fabricado em todos os chips daquele modelo. Por isso a Wikipedia descreve a chip art como algo sem custo extra de fabricação: ele já ia pagar pela máscara de qualquer jeito.
Os desenhos costumam ficar nas camadas de metal, as mais de cima, que é onde aparecem melhor no microscópio. Alguns engenheiros foram além: a IEEE Spectrum cita um guepardo num controlador de memória da HP, de 1988, desenhado em várias camadas para parecer tridimensional.
Dica: se você achar um chip antigo e quiser procurar, não tente abrir em casa com produtos químicos. Quem faz isso usa ácidos fortes para dissolver o encapsulamento, e muitos chips quebram no processo. Comece pelas fotos que já existem no Silicon Zoo.
Por que os engenheiros faziam isso
Assinatura. Era o jeito de dizer "fui eu que fiz". A IEEE Spectrum descreve como "marcar território, do jeito que os lobos fazem". Os desenhos viravam pôster ampliado nas baias da equipe.
Brincadeira. Muitos são piadas internas. Na mesma reportagem, um chip da Allen-Bradley/Rockwell de 1988 tem uma baleia cachalote e o número 42, referência a O Guia do Mochileiro das Galáxias. "A gente fez para nós mesmos", disse à NPR Willy McAllister, engenheiro aposentado da HP. "Ninguém esperava que alguém abrisse o chip 10 anos depois e ficasse maravilhado."
Prova de cópia. Essa é a parte mais técnica. Copiar um chip era possível: bastava fotografar as camadas e reproduzir as máscaras. Se o chip concorrente tivesse o mesmo desenho inútil no mesmo lugar, ficava provado que não era coincidência, era cópia. Funcionava como uma marca d'água.
Alinhamento. O Smithsonian cita mais um uso: marcas desse tipo ajudavam a conferir se as camadas estavam alinhadas corretamente na fabricação.
Por que eles quase sumiram
- A lei mudou em 1984. O Semiconductor Chip Protection Act passou a proteger automaticamente o desenho das máscaras nos EUA. Copiar o layout virou violação por si só, e a marca d'água perdeu a função jurídica.
- As ferramentas ficaram mais rígidas. Programas de verificação (como o Design Rule Check) passaram a apontar qualquer estrutura sem função.
- Os chefes não gostavam. Medo de que o desenho atrapalhasse alguma etapa do projeto. A IEEE Spectrum registrou uma frase que resume o pensamento da gerência: "Se você tem tempo de desenhar uma baleia cachalote, por que não está desenhando algo que a gente possa vender?"
- Os projetos cresceram. Equipes enormes, prazos curtos e circuitos gerados por software diminuíram o sentimento de "esse chip é meu".
Segundo a NPR, a prática foi do meio dos anos 1980 até o início dos anos 2000.
O Silicon Zoo
O Silicon Zoo é uma galeria on-line criada por Michael W. Davidson, microscopista da Florida State University, com o Laboratório Nacional de Altos Campos Magnéticos dos EUA. Tudo começou por acaso: examinando chips no microscópio, a equipe encontrou um Waldo de arame "escondido entre caches, barramentos e registradores". Depois disso, passaram a procurar de propósito.
Davidson, já falecido, catalogou centenas de desenhos (a IEEE Spectrum falava em mais de 300 em 2002). As fotos foram feitas com técnicas de microscopia como campo claro, campo escuro e contraste de interferência diferencial, que deixam o mesmo desenho com cores e texturas diferentes. O site ainda pede que quem souber de novos chips com desenhos entre em contato.
Alguns que vale abrir:
- Where's Waldo?, o primeiro achado.
- Snoopy, Mickey Mouse e Patolino.
- Godzilla e Pac-Man.
- O ônibus espacial e o módulo lunar.
- Dilbert, o personagem de tirinha sobre a vida de engenheiro.
A coelhinha da Playboy
É o desenho do vídeo. O Silicon Zoo mostra o logo da Playboy gravado num chip da Siemens, empresa alemã, cuja função não foi identificada. O chip foi doado pelo fotógrafo alemão Karl E. Deckart, que fotografou o desenho no microscópio com iluminação de campo claro e campo escuro.
O logo original foi criado por Art Paul, primeiro diretor de arte da revista. Por que ele foi parar num chip industrial alemão, ninguém documentou. E é esse mistério que deixa o desenho tão curioso.
Ver a coelhinha no Silicon Zoo · versão em campo claro · versão em campo escuro
Quem caça esses chips hoje
Os desenhos voltaram a aparecer por causa das redes sociais. A NPR contou, em 2024, a história de uma nova geração de caçadores:
- Kenton Smith (@evilmonkeyzdesignz), projetista de placas de circuito, compra lotes de chips antigos no eBay, abre um por um e posta os achados em vídeo.
- @CPU_Duke, colecionador anônimo que garimpa chips em feiras de rua toda semana.
A corrida tem um motivo: chips antigos são reciclados e destruídos. "Se eu não pegar, talvez nunca mais veja aquele chip", disse Smith à NPR. Um único decodificador da Qualcomm, o Q1650, tem 7 desenhos documentados. Richard Kerr, que trabalhou 15 anos na Qualcomm, contou que ficou "impressionado que alguém realmente encontrou".
Quer ver a busca na prática? Este vídeo mostra chips sendo abertos e fotografados no microscópio:
Os famosos, lado a lado
| Desenho | Onde apareceu | Fonte |
|---|---|---|
| Waldo | Um microprocessador examinado pela equipe da FSU | Silicon Zoo |
| Coelhinha da Playboy | Chip da Siemens, função não identificada | Silicon Zoo |
| Godzilla cuspindo fogo | Processador de sinal da Analog Devices, por volta de 1994 | Smithsonian |
| Guepardo em 3D | Controlador de memória da HP, 1988 | IEEE Spectrum |
| Baleia e o número 42 | Chip da Allen-Bradley/Rockwell, 1988 | IEEE Spectrum |
| Hagar, o Horrível | Chip de celular da Nokia, 1999 | IEEE Spectrum |
| Sete desenhos num chip só | Decodificador Qualcomm Q1650 | NPR |
E nem toda empresa topava. Segundo a IEEE Spectrum, a Intel era tão restritiva que só dois desenhos dela eram conhecidos na época, e nenhum foi encontrado em chips de fabricantes japoneses.
Cuidado com as lendas
Como quase ninguém consegue conferir, chip art também gera boato. A Wikipedia cita o caso de um suposto "bill sux" (algo como "Bill é um lixo", sobre Bill Gates) que estaria gravado num Pentium. Nunca foi comprovado. Na dúvida, procure a foto no microscópio e a fonte.
Pra ir mais fundo
Galerias e acervos
- The Silicon Zoo: a coleção de referência, com centenas de desenhos.
- Assinaturas e mensagens no Silicon Zoo: iniciais, frases e declarações escondidas.
- Chip com Godzilla no Smithsonian: o objeto no acervo do museu, com foto em domínio público.
Reportagens
- IEEE Spectrum: The Secret Art of Chip Graffiti (2002): a reportagem clássica, com engenheiros contando por que desenhavam.
- NPR: a nova geração que caça os desenhos (2024): os colecionadores de hoje.
- All About Circuits: a ascensão e o declínio da arte em silício (2022): por que a prática acabou.
Contexto técnico
- Wikipedia: Chip art: visão geral, com a parte sobre lendas.
- Lei de proteção de chips dos EUA, capítulo 9 do Copyright Act: o texto da lei de 1984 que mudou tudo.
Glossário rápido
- Chip (circuito integrado): um pedaço de silício com milhões ou bilhões de componentes eletrônicos minúsculos.
- Die: o pedaço de silício em si, que fica escondido dentro do encapsulamento preto.
- Fotolitografia: o processo de "carimbar" o desenho do circuito no silício usando luz.
- Máscara: o estêncil com o desenho de uma camada do chip.
- Layout: o desenho completo do chip, camada por camada.
- Micrômetro (µm): a milésima parte de um milímetro.
- Mask work: o nome jurídico, nos EUA, para o desenho das máscaras de um chip, protegido desde 1984.
- Campo escuro: técnica de microscopia em que a luz bate de lado, e só o que tem relevo brilha.
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